Lentamente, via-o caminhar por aquelas tortuosas ruas. Cansado de tamanha e injusta sinuosidade, sua rápida aproximação a mim representava os fiapos que lhe restavam de esperança; todos contidos no simbólico e imagético verde que me circurdava naquele instante. Meu olhar, ao mesmo tempo reto e fugaz, o fascinara desde a primeira vez em que nos vimos. Neste parque, onde agora conversamos, observávamos um ao outro como espelhos. Ele gostava de me mostrar em seus olhos despretensiosos reflexos. Quando se prostrava frente a uma árvore, fazia-se de folha. Noutros momentos apontava-me o Sol, sendo que dele eu sentia apenas o calor transposto por sua essência refletora. Éramos sempre assim, eu e ele; espelhos mútuos e tortamente apontados um para o outro, como se almejássemos em nossos olhares um infinito intangível. E assim mantivemos o desejo, vivendo apenas do que era lançado como projeção imperfeita. Nunca cedi à lascívia dos pássaros ali presentes; todos regidos por seus braços exaustos, como se clamassem aos céus por um hino divino que coubesse em minha beleza. Até que a amargura refratada durante todo esse tempo pôde ser liberta. Após os sete tártaros anos aos quais o fim de sua existência me sentenciou, posso ver que fui mais forte do que os cacos que lhe restaram dos olhos. Um a um, joguei-os no rio. Esse hoje é o berço perene de minha maldição. O reflexo, que antes vinha de seus olhos, agora desfalecia frente ao olhar correspondido que vejo naquelas águas. Desenhada delicadamente na superfície extensa e transparente apenas eu. E fico feliz assim. Vez ou outra borbulham velhas imagens, das quais rapidamente desvio o olhar do jeito como me ensinara. E quando marejam meus olhos, já é tarde demais. A tristeza que você sentiria virava em mim uma doentia emoção. Está um belo dia lá fora, uma pena você ter acordado morto. Quem sabe numa nova vida não pudesse ver que, após seu eterno exílio, aquele parque transformou-se em meus Elísios.