é bom virar pra trás
e ter a vontade de não voltar mais
perceber que certas coisas vão embora
mas que as ofertas puras não têm hora
pra partir ou pra voltar
eis que se vê no céu: tudo está no ar

como duas crianças se observando na inocência
via nos seus olhos o brilho de uma evanescência
a brotar na rosa tímida que circundava meu solo inerte
mas você, mulher, nascendo em terra agora fértil
abençoou-a com tanta beleza e lhe deu a tempestade
essa, que ontem me trouxe o céu – hoje é só saudade

sentimento único que degustava sem sua presença
muito jovem e imaturo pra saber o que é a ausência
só que, em todos os momentos, somos chamados a crescer
parece que o céu quer nós esticar, a ponto de nos ter
mas como podem querer me possuir, deuses triunfantes
se não me ensinaram o que é posse nem ao menos num instante

tudo que não conquistei foi embora com o vento
a esperança rota de conquistá-las se esvaiu no tempo
e no espaço vazio de quem aprendeu a viver do outono
e dos sonhos perdidos e chorosos que me tiraram o sono
o dia e a tarde, por apenas iludirem minha realidade
nas folhas secas que cobrem o jardim, a efemeridade

nasce então a era dos fluidos, do gelo e seus olhos estáticos
contrastando com o verde que não mais possuem meus jardins árticos
seus braços quentes passeando por outros mundos menos brancos
aquecendo terras longíquas, enquanto seu calor se via em tantos
aqui tudo estava frio e o que me restava de líquido, secou
ebuliu por seu calor espalhado pelo ar – hiato, pausa – no amor

chega a idade de revivermos a efemeridade recém-descoberta
as flores da primavera abrem passagem para uma travessia incerta
os céus antes nos chamavam a crescer, hoje isso virou verdade
ainda que a falta dela transforme tudo em pinturas e instabilidade
o calor e o amor, de que tanto sinto falta, às vezes parecem voltar
- são só instintos passageiros de um verão que a mim não virá

enxergamos à frente alguns livros e meia dúzia de garrafas vazias
escondidos em nós, dois corações ainda sequiosos e a melancolia
a todo momento sedentos por mais um pedaço de embriaguez
forte o bastante para banhar nossos atos de insensatez
quando, diante do espelho, vemos um ao outro sãos
vem a taquicardia decorrente de uma única percepção:
uma página em branco é o epílogo de nosso amor