nunca sonhei em voar,
mas sempre estive exposto às quedas.
olhar para cima me ensinou a andar
- sempre assim, com os pés no chão.
a semente na mão era minha única companhia.
jamais fui capaz de alçar vôos,
ainda que meu desejo fosse plantá-la nas nuvens.
o máximo que a vida me permitiu foi destruir
- partir em dois o chão abaixo de nós.
se não fora possível criar asas,
mais uma queda me dava o falso prazer de voar,
e, ruínas abaixo, senti o vento bater.
era chegado o fim, estava no poço do universo.
um pouco de terra amorteceu os instantes que me restavam.
com mãos sangrentas, tingi de rubro o solo em que plantei
o que me sobrou de vida, a semente.
vá, cresça. entreguei minha vida a você para que pudesse
chegar aonde nunca fui, os ceús.
vá, deixe que seus delicados e calejados galhos,
retorcidos por nossa história – subam até o azul celeste.
vá, escreva o infinito nas estrelas, mostre aos deuses
nossos poemas.
vá – mas retorne. deixe que o Outono a traga de volta para mim.
e que suas folhas secas possam cair sobre meu corpo apodrecido
para que a queda e a morte sejam, mais uma vez, minha única esperança
de viver novamente. e poder compartilhar com você
o seio da natureza que nunca saboreamos juntos.
sobre o rosto alvo, pendiam as negras madeixas
a recostarem sobre não menos brancas areias
tal que confluíam os grãos e teu semblante leve
e tornavam-se um a luz do Sol e o brilho de tua pele
como se arpoasse por entre as águas marejantes
fito ali tua imagem e furto para mim aquele instante
em que a profusão de tuas cores refletia meus olhos
alaranjados e pulsantes por queimar aqueles imbróglios
e trazer-me a paz da noite e de sombras tão áureas
agora que tua imagem foi tatuada em minhas pálpebras
Lentamente, via-o caminhar por aquelas tortuosas ruas. Cansado de tamanha e injusta sinuosidade, sua rápida aproximação a mim representava os fiapos que lhe restavam de esperança; todos contidos no simbólico e imagético verde que me circurdava naquele instante. Meu olhar, ao mesmo tempo reto e fugaz, o fascinara desde a primeira vez em que nos vimos. Neste parque, onde agora conversamos, observávamos um ao outro como espelhos. Ele gostava de me mostrar em seus olhos despretensiosos reflexos. Quando se prostrava frente a uma árvore, fazia-se de folha. Noutros momentos apontava-me o Sol, sendo que dele eu sentia apenas o calor transposto por sua essência refletora. Éramos sempre assim, eu e ele; espelhos mútuos e tortamente apontados um para o outro, como se almejássemos em nossos olhares um infinito intangível. E assim mantivemos o desejo, vivendo apenas do que era lançado como projeção imperfeita. Nunca cedi à lascívia dos pássaros ali presentes; todos regidos por seus braços exaustos, como se clamassem aos céus por um hino divino que coubesse em minha beleza. Até que a amargura refratada durante todo esse tempo pôde ser liberta. Após os sete tártaros anos aos quais o fim de sua existência me sentenciou, posso ver que fui mais forte do que os cacos que lhe restaram dos olhos. Um a um, joguei-os no rio. Esse hoje é o berço perene de minha maldição. O reflexo, que antes vinha de seus olhos, agora desfalecia frente ao olhar correspondido que vejo naquelas águas. Desenhada delicadamente na superfície extensa e transparente apenas eu. E fico feliz assim. Vez ou outra borbulham velhas imagens, das quais rapidamente desvio o olhar do jeito como me ensinara. E quando marejam meus olhos, já é tarde demais. A tristeza que você sentiria virava em mim uma doentia emoção. Está um belo dia lá fora, uma pena você ter acordado morto. Quem sabe numa nova vida não pudesse ver que, após seu eterno exílio, aquele parque transformou-se em meus Elísios.

poucas foram as semanas até que meus olhos começassem a arder
e como se eu pudesse ver feridas intocadas encostei em você
foi quando nossos lábios indo ao encontro um do outro
puderam, finalmente, cessar meus esboços
e a imagem que pintei de sua face
passou a ser um único enlace
entre nós dois e o diabo
há o inacabado
e no fim
o sim
dance comigo e observe à sua frente
apresento-lhe o mundo em seu fim
as chamas entram em minha mente
e pássaros passam a rogar assim:
‘de tudo que me deste pouco emana
pois agora da terra brota só o nada’
pode assim acabar a raça humana
e renascer o Universo sem sua farda?
e agora, será?
quem a ele dirá
deus morreu?
deus-mor eu?!
-
caem os falsos poetas ao erguerem suas sujas mãos
adormecendo cedo para demonizar o sono dos sãos
tirando-lhes das entranhas as mais nobres virtudes
para trancá-las no enclaustro de torpes vicissitudes
dão cria a falsos profetas os nascidos pela religião
ofertando a eles mil provações e uma só salvação
mas se nos salvam de um mundo por eles criado
como posso eu ter por mim a marca do pecado?
-
a insanidade dos falsos segredos
torna em mistério velhos medos
sobram apenas os corações vazios
dentro deles alguns desejos lascivos
um a um tomados pelas divindades
furtando das mentes toda sanidade
e pondo-a mormente em vis altares
para depois reerguê-la mil andares
em fartos templos de sacra modéstia
que reunem do mundo toda moléstia
e da besta a única e santa verdade:
o cadáver de deus é a humanidade
sinto-a entoando um canto sereno e breve
como se disfarçasse assim toda sua alteza
mas isso se esvai e dá lugar à pura beleza
vibra, compassada, em mim tão casta pele
lançamos um ao outro os primeiros passos
atônitos e eriçados contemplamos a dança
que construímos fazendo das pernas trança
e dos cálidos braços nobre celeiro de laços
eis que já quase entrecruzados olhamo-nos
e no primeiro olhar a iminência do beijo jaz
para que se anuncie o fim e sua serena paz
calando assim todo o silêncio dos estranhos
sobre os lentos passos de minha caminhada inebriante
a neve se põe a recostar castos e letárgicos olhares
como se transformasse velhas pegadas em regiões polares
e pudesse trocar o tempo por um congelado instante
peço a outros sóis de volta o calor que outrora me era um esteio
para que me preencham as pálpebras com uma energia tamanha
que meus olhos vejam somente por velhos caminhos e entranhas
a passagem que abrem o vento e esses pássaros estrangeiros
e é esta janela, de onde saem todos os meus desejos e aflições,
quem me prende nessas manhãs eternas de um inverno fugaz
em que a solidão me torna num ermitão sem espelhos ou orações
ante a reclusão imposta por este esquife em que são inaudíveis as lições
e sem reflexos de mim mesmo, mergulho-me numa terra mordaz
prestes a, banhado em sangue e lama, reeguer-me junto às monções
ontem, numa manhã boba, o vermelho perguntou ao branco
o que seria preciso, se quisesse transformar neve em manto
e tornar um semblante esbelto em seu templo de calidez
e o branco disse ao vermelho o que ousara fazer certa vez:
‘apregoa no seio daquela face o ar lívido de minha essência
mas lança-te como chama em deletério fulgor de inocência’
tal que, como assim foi dito, o fez em sua forma capciosa
e denunciaram aquelas maçãs o mais casto amor-rosa
no que o fruto proibido se combina à semente infante
tem-se um jardim eternizado pela beleza de um instante
ela ainda é jovem
em sua vida um mosaico,
feito de retalhos da própria existência
olhos belos se movem,
a observar um passado arcaico
para espantar esse espantalho, clama paciência
os céus a respondem
e, de seu coração prosaico,
libertam o fel, conclamando doce vivência
“os desejos tudo podem”,
revelava a si mesma.
ainda que os guardasse entre parênteses,
esses prestavam-lhe reverências,
ansiosos por serem libertos
ainda que fosse apenas aparente,
essa fugaz e deletéria incoerência
não deixava seus pensamentos quietos
afinal, via-se nela o que não se sente:
esta sagaz e etérea alma de inocência
tem, em sua afabilidade, o caminho certo
de voz baixa e jeito sutil,
conquistou-me um espaço no céu,
pois, mesmo que eu possa ser réu,
tornara-se em vida mito desse ser vil.