poucas foram as semanas até que meus olhos começassem a arder
e como se eu pudesse ver feridas intocadas encostei em você
foi quando nossos lábios indo ao encontro um do outro
puderam, finalmente, cessar meus esboços
e a imagem que pintei de sua face
passou a ser um único enlace
entre nós dois e o diabo
há o inacabado
e no fim
o sim
dance comigo e observe à sua frente
apresento-lhe o mundo em seu fim
as chamas entram em minha mente
e pássaros passam a rogar assim:
‘de tudo que me deste pouco emana
pois agora da terra brota só o nada’
pode assim acabar a raça humana
e renascer o Universo sem sua farda?
e agora, será?
quem a ele dirá
deus morreu?
deus-mor eu?!
-
caem os falsos poetas ao erguerem suas sujas mãos
adormecendo cedo para demonizar o sono dos sãos
tirando-lhes das entranhas as mais nobres virtudes
para trancá-las no enclaustro de torpes vicissitudes
dão cria a falsos profetas os nascidos pela religião
ofertando a eles mil provações e uma só salvação
mas se nos salvam de um mundo por eles criado
como posso eu ter por mim a marca do pecado?
-
a insanidade dos falsos segredos
torna em mistério velhos medos
sobram apenas os corações vazios
dentro deles alguns desejos lascivos
um a um tomados pelas divindades
furtando das mentes toda sanidade
e pondo-a mormente em vis altares
para depois reerguê-la mil andares
em fartos templos de sacra modéstia
que reunem do mundo toda moléstia
e da besta a única e santa verdade:
o cadáver de deus é a humanidade
sinto-a entoando um canto sereno e breve
como se disfarçasse assim toda sua alteza
mas isso se esvai e dá lugar à pura beleza
vibra, compassada, em mim tão casta pele
lançamos um ao outro os primeiros passos
atônitos e eriçados contemplamos a dança
que construímos fazendo das pernas trança
e dos cálidos braços nobre celeiro de laços
eis que já quase entrecruzados olhamo-nos
e no primeiro olhar a iminência do beijo jaz
para que se anuncie o fim e sua serena paz
calando assim todo o silêncio dos estranhos
sobre o rosto alvo, pendiam as negras madeixas
a recostarem sobre não menos brancas areias
tal que confluíam os grãos e teu semblante leve
e tornavam-se um a luz do Sol e o brilho de tua pele
como se arpoasse por entre as águas marejantes
fito ali tua imagem e furto para mim aquele instante
em que a profusão de tuas cores refletia meus olhos
alaranjados e pulsantes por queimar aqueles imbróglios
e trazer-me a paz da noite e de sombras tão áureas
agora que tua imagem foi tatuada em minhas pálpebras
sobre os lentos passos de minha caminhada inebriante
a neve se põe a recostar castos e letárgicos olhares
como se transformasse velhas pegadas em regiões polares
e pudesse trocar o tempo por um congelado instante
peço a outros sóis de volta o calor que outrora me era um esteio
para que me preencham as pálpebras com uma energia tamanha
que meus olhos vejam somente por velhos caminhos e entranhas
a passagem que abrem o vento e esses pássaros estrangeiros
e é esta janela, de onde saem todos os meus desejos e aflições,
quem me prende nessas manhãs eternas de um inverno fugaz
em que a solidão me torna num ermitão sem espelhos ou orações
ante a reclusão imposta por este esquife em que são inaudíveis as lições
e sem reflexos de mim mesmo, mergulho-me numa terra mordaz
prestes a, banhado em sangue e lama, reeguer-me junto às monções
ontem, numa manhã boba, o vermelho perguntou ao branco
o que seria preciso, se quisesse transformar neve em manto
e tornar um semblante esbelto em seu templo de calidez
e o branco disse ao vermelho o que ousara fazer certa vez:
‘apregoa no seio daquela face o ar lívido de minha essência
mas lança-te como chama em deletério fulgor de inocência’
tal que, como assim foi dito, o fez em sua forma capciosa
e denunciaram aquelas maçãs o mais casto amor-rosa
no que o fruto proibido se combina à semente infante
tem-se um jardim eternizado pela beleza de um instante
ela ainda é jovem
em sua vida um mosaico,
feito de retalhos da própria existência
olhos belos se movem,
a observar um passado arcaico
para espantar esse espantalho, clama paciência
os céus a respondem
e, de seu coração prosaico,
libertam o fel, conclamando doce vivência
“os desejos tudo podem”,
revelava a si mesma.
ainda que os guardasse entre parênteses,
esses prestavam-lhe reverências,
ansiosos por serem libertos
ainda que fosse apenas aparente,
essa fugaz e deletéria incoerência
não deixava seus pensamentos quietos
afinal, via-se nela o que não se sente:
esta sagaz e etérea alma de inocência
tem, em sua afabilidade, o caminho certo
de voz baixa e jeito sutil,
conquistou-me um espaço no céu,
pois, mesmo que eu possa ser réu,
tornara-se em vida mito desse ser vil.
é bom virar pra trás
e ter a vontade de não voltar mais
perceber que certas coisas vão embora
mas que as ofertas puras não têm hora
pra partir ou pra voltar
eis que se vê no céu: tudo está no ar
como duas crianças se observando na inocência
via nos seus olhos o brilho de uma evanescência
a brotar na rosa tímida que circundava meu solo inerte
mas você, mulher, nascendo em terra agora fértil
abençoou-a com tanta beleza e lhe deu a tempestade
essa, que ontem me trouxe o céu - hoje é só saudade
sentimento único que degustava sem sua presença
muito jovem e imaturo pra saber o que é a ausência
só que, em todos os momentos, somos chamados a crescer
parece que o céu quer nós esticar, a ponto de nos ter
mas como podem querer me possuir, deuses triunfantes
se não me ensinaram o que é posse nem ao menos num instante
tudo que não conquistei foi embora com o vento
a esperança rota de conquistá-las se esvaiu no tempo
e no espaço vazio de quem aprendeu a viver do outono
e dos sonhos perdidos e chorosos que me tiraram o sono
o dia e a tarde, por apenas iludirem minha realidade
nas folhas secas que cobrem o jardim, a efemeridade
nasce então a era dos fluidos, do gelo e seus olhos estáticos
contrastando com o verde que não mais possuem meus jardins árticos
seus braços quentes passeando por outros mundos menos brancos
aquecendo terras longíquas, enquanto seu calor se via em tantos
aqui tudo estava frio e o que me restava de líquido, secou
ebuliu por seu calor espalhado pelo ar - hiato, pausa - no amor
chega a idade de revivermos a efemeridade recém-descoberta
as flores da primavera abrem passagem para uma travessia incerta
os céus antes nos chamavam a crescer, hoje isso virou verdade
ainda que a falta dela transforme tudo em pinturas e instabilidade
o calor e o amor, de que tanto sinto falta, às vezes parecem voltar
- são só instintos passageiros de um verão que a mim não virá
enxergamos à frente alguns livros e meia dúzia de garrafas vazias
escondidos em nós, dois corações ainda sequiosos e a melancolia
a todo momento sedentos por mais um pedaço de embriaguez
forte o bastante para banhar nossos atos de insensatez
quando, diante do espelho, vemos um ao outro sãos
vem a taquicardia decorrente de uma única percepção:
uma página em branco é o epílogo de nosso amor
ao longe se vê, tão perto, a pequenina bailarina
estendendo suas pernas feito duas longarinas.
eis que surge sob seus pés a ponte da História -
unindo passado, futuro e o que mais for memória.
carrega em seu vestido finos detalhes desenhados,
assim como as lembranças em mente - seus legados.
em cada apresentação um mais-que-passo brilhante
e em seu destino - o desatino a fez ser errante.
-
fez um farol de liberdade iluminar seu alredor
conseguindo, então, apreender o dom maior:
mais do que buscar ao léu - aprendeu a receber.
antes de almejar subir ao céu - fê-lo querer descer.
ergueu os braços para o alto, fechou seus olhos
reviveu metáforas, naturezas, luzes e imbróglios.
como se à beira da morte - viu sua vida passar
mas não tão sorrateira, pois algo pôde ficar.
-
de todos seus tempos guardou um único presente,
o momento mágico em que tudo é apenas recente.
o instante singular de ver que sua sina é ser atriz
rodopiar, dançar e tudo o que seu infinitivo lhe diz.
até que venham as palmas e o silêncio decorrente,
vê os olhares extasiados e finaliza a obra contente.
construiu em seus espectadores um só espetáculo
despertando - naqueles que o sentiam - o miráculo
-
o milagre da arte e do momento
- de uma parte, de um tormento.
não há futuro, não há passado.
todos os tempos são apenas
o presente desembrulhado.